Estudo identifica Salmonella em criações de peixes nativos
Estudo realizado em viveiros de peixes nativos no Centro-Oeste brasileiro revelou a presença da bactéria Salmonella spp. em ambientes de produção aquícola da região. Os monitoramentos microbiológicos detectaram o patógeno em...

Estudo realizado em viveiros de peixes nativos no Centro-Oeste brasileiro revelou a presença da bactéria Salmonella spp. em ambientes de produção aquícola da região. Os monitoramentos microbiológicos detectaram o patógeno em 88% das propriedades avaliadas e em 31,5% das amostras coletadas em Mato Grosso, principal polo produtor dessas espécies no País. Os dados alertam para a necessidade de reforçar a vigilância e a biossegurança nos ambientes de criação.
As ações foram coordenadas pela pesquisadora Fabíola Fogaça, da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), e contaram com a participação dos professores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Eduardo Figueiredo e Luciana Savay-da-Silva.
Fogaça explica que quando os pontos críticos de contaminação são detectados precocemente, é possível adotar medidas preventivas que reduzem os riscos e aumentam a segurança do alimento e a sustentabilidade da produção.
A pesquisa integra uma série de estudos conduzidos por cientistas da Embrapa, universidades e instituições parceiras para compreender os riscos microbiológicos associados à produção de peixes cultivados e orientar medidas de prevenção que garantam um pescado seguro e a competitividade do setor aquícola.
Estudo avaliou pisciculturas em diferentes biomas
O trabalho foi conduzido em viveiros localizados nos biomas Pantanal e Cerrado e abrangeu 184 amostras provenientes de peixes, água dos viveiros, sedimentos, ração e fezes de animais silvestres e domésticos presentes nas áreas de cultivo.
As análises microbiológicas seguiram protocolos internacionais e foram confirmadas por testes moleculares, permitindo identificar a ocorrência da bactéria, os sorotipos circulantes e os perfis de sensibilidade a antimicrobianos. Os resultados indicaram a presença de dez sorotipos diferentes, com predominância dos intitulados Saintpaul e Newport, além de níveis moderados de resistência a alguns antibióticos, embora sem detecção de cepas multirresistentes.
Além disso, a análise estatística indicou que as vísceras dos peixes apresentaram as maiores taxas de detecção, e que a ocorrência do patógeno foi mais elevada no período seco, sugerindo influência de fatores ambientais e de manejo na dinâmica da contaminação. Esses resultados permitiram identificar pontos críticos ao longo da fase de produção e fornecer subsídios para o desenvolvimento de protocolos de biossegurança voltados à piscicultura brasileira.
Outro estudo avaliou 55 cepas de Salmonella, isoladas da tambatinga (híbrido de tambaqui) cultivada, e analisou a sua suscetibilidade a antibióticos de uso clínico. Nenhuma das cepas apresentou sorotipos clássicos associados a surtos humanos graves (como Typhi, Enteritidis ou Typhimurium), e todas foram sensíveis aos antibióticos testados, indicando baixo risco de resistência nas condições avaliadas.
A pesquisadora ressalta que o estudo foi restrito à área de produção e não a toda a cadeia produtiva. “Isso não significa que o produto final necessariamente estará contaminado, pois os controles sanitários, o processamento industrial e o cozimento adequado podem reduzir ou eliminar o risco”, complementa.
Na prática, a contaminação microbiológica do pescado pode ocorrer ainda na fase de produção, nos viveiros, podendo ser significativamente reduzida na indústria. A segurança final do alimento depende também do armazenamento adequado e do preparo correto pelo consumidor, etapas fundamentais para prevenir a contaminação alimentar.
Os fatores que contribuem para a contaminação podem ser inúmeros. Mas a professora da UFMT pontua que o fato dos viveiros serem de fácil acesso para pássaros, animais silvestres (jacarés, capivaras, entre outros), animais de criação (aves, suínos, caprinos, bovinos) e também animais domésticos (cachorro, gatos) propicia o contágio do solo e da água dos tanques de criação, tornando a contaminação dos peixes praticamente inevitável.
Outro ponto a ser levado em consideração é o atual fluxo de processamento desses peixes nos frigoríficos, onde a primeira etapa é a lavagem com água hiperclorada, seguida pela retirada das vísceras e guelras. “Estudos em laboratório e também em escala piloto já demonstraram que seria mais eficiente invertermos essas etapas, sendo interessante primeiro a retirada das vísceras e guelras, ainda em uma área suja, e depois a lavagem hiperclorada”, esclarece Savay-da-Silva.
Como evitar contaminação ao consumir pescado
Mesmo que o pescado tenha sido exposto a microrganismos durante a produção, cuidados simples na cozinha reduzem o risco de contaminação alimentar praticamente a zero:
Armazenamento
- Mantenha o pescado refrigerado (até 4 °C) ou congelado.
- Evite deixar o produto fora da geladeira por longos períodos.
Evite contaminação cruzada
- Separe peixe cru de alimentos prontos para consumo.
- Utilize facas, tábuas e utensílios diferentes para alimentos crus e cozidos.
- Lave bem as mãos, utensílios e superfícies após manipular o pescado cru.
Cozimento seguro
- Cozinhe completamente o pescado (temperatura interna acima de 70 °C).
- Evite consumir peixe cru ou mal cozido sem um selo de inspeção sanitária.
Higiene na cozinha
- Descarte líquidos da embalagem e higienize a pia após o preparo.
- Prefira sempre produtos de origem inspecionada.
Por Ana Lucia Ferreira,
Embrapa Agroindústria de Alimentos
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